Eu vou ser direto: The End of the Sun não é um jogo para todo mundo, e ele nem tenta ser. Desde o início, fica claro que a proposta aqui não é ação, não é ritmo acelerado e muito menos “gameplay tradicional”. Pelo contrário, o jogo aposta em algo que muita gente hoje já não tem mais paciência: exploração lenta, observação e interpretação.
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A ideia central gira em torno de um mundo onde o sol, o fogo e as tradições antigas têm um peso quase espiritual. No entanto, o jogo não entrega isso de forma direta. Em vez disso, ele me coloca no papel de um Ashter, uma espécie de feiticeiro eslavo, que investiga acontecimentos ligados a uma criatura mitológica — o Rarog — enquanto acompanha fragmentos da vida de uma pequena comunidade.
E aqui já entra um ponto importante: The End of the Sun não conta uma história de forma linear. Portanto, eu precisei montar tudo aos poucos, conectando eventos, entendendo relações e, principalmente, aceitando que o jogo não vai me guiar o tempo todo. Isso pode ser fascinante ou frustrante, dependendo de quem está jogando.
Narrativa fragmentada, mas com identidade forte
A narrativa é, sem dúvida, o ponto mais interessante — e também o mais desafiador.
Ao longo da experiência, eu acompanhei diferentes momentos da vida dos habitantes de um vale, observando suas relações, conflitos e rituais. No entanto, tudo acontece de forma não linear, e isso faz com que cada descoberta tenha mais peso, já que eu não estou apenas “assistindo” a história, mas montando ela.

Além disso, o jogo utiliza fortemente o folclore eslavo como base. E isso não é superficial. Pelo contrário, dá para perceber claramente o cuidado dos desenvolvedores em representar tradições, mitos e crenças de forma respeitosa e detalhada. Isso cria uma identidade muito forte, algo que muitos jogos hoje simplesmente não têm.
Por outro lado, essa abordagem também torna o jogo mais distante para quem não tem familiaridade com esse tipo de cultura. Ainda assim, eu diria que vale o esforço, porque o resultado final é diferente do que estamos acostumados.
Gameplay: exploração pura — e paciência obrigatória
Aqui é onde muita gente pode abandonar o jogo.
The End of the Sun é, essencialmente, um walking simulator com puzzles. Eu exploro o mapa, interajo com objetos, observo pistas e resolvo pequenas situações para desbloquear novas partes da história. E sim, isso envolve muito vai e volta.
O sistema principal gira em torno de fogueiras. Cada uma delas funciona como um ponto de conexão com o tempo, permitindo acessar memórias e eventos passados. A partir disso, eu preciso encontrar objetos, corrigir acontecimentos e, basicamente, reorganizar eventos para que as histórias avancem.

É um conceito interessante, e funciona bem na maior parte do tempo. No entanto, o ritmo é lento — às vezes lento demais. Em vários momentos, eu senti que estava andando mais do que jogando.
Além disso, a ausência de mecânicas mais dinâmicas faz com que o jogo dependa quase totalmente do interesse do jogador pelo mundo. Se isso não te prender, dificilmente o gameplay vai segurar.
Ambientação: aqui o jogo brilha sem esforço
Se tem uma coisa que The End of the Sun faz muito bem, é ambientação.
O nível de detalhe é impressionante. Os desenvolvedores utilizaram fotogrametria e referências reais de museus para construir o mundo, e isso aparece o tempo todo. Cada casa, cada objeto, cada cenário parece ter sido pensado com cuidado.

Além disso, o sistema de estações muda completamente o ambiente. O mesmo local pode parecer outro dependendo da época do ano, e isso não é só visual — impacta diretamente na exploração e nos puzzles.
O som também ajuda muito. O jogo usa ambientação sonora constante, com vento, pássaros, água e fogo criando uma sensação de presença muito forte. A trilha entra em momentos específicos, reforçando o clima em vez de dominar a experiência.
Consequentemente, o jogo acerta em cheio na imersão.
Problemas claros — e que podem incomodar bastante
Apesar de toda a proposta interessante, existem problemas que não dá para ignorar.
O ritmo, como já falei, pode ser cansativo. Além disso, a falta de direcionamento em alguns momentos gera confusão, principalmente no início. Eu tive situações em que simplesmente não sabia o que fazer, não por complexidade, mas por falta de clareza.

Outro ponto é a movimentação limitada. Não poder escalar ou descer livremente certas áreas torna a exploração mais travada do que deveria, o que aumenta ainda mais a sensação de lentidão.
E, dependendo do jogador, o jogo pode parecer vazio. Existem momentos em que você anda bastante sem encontrar nada relevante, e isso quebra o engajamento.
Conclusão: uma experiência única — mas de nicho
The End of the Sun é um jogo que claramente foi feito com cuidado, pesquisa e intenção.
Ele não quer ser comercial, não quer ser rápido e não quer agradar todo mundo. Em vez disso, ele aposta em atmosfera, cultura e narrativa fragmentada. E isso é algo que eu respeito bastante.
Por outro lado, ele exige paciência — muita paciência.
Se você gosta de exploração lenta, construção de mundo e experiências mais contemplativas, esse jogo pode te prender bastante. Caso contrário, a chance de abandono é alta.
E no fim, é exatamente isso que define The End of the Sun: não é sobre agradar, é sobre oferecer algo diferente.
A Comunidade Mega Drive recebeu uma chave para o review do jogo.






