Eu vou começar direto ao ponto: REPLACED não é só mais um jogo bonito, e sinceramente, ele nem tenta ser. Antes de qualquer coisa, existe um contexto real por trás dele que pesa — o desenvolvimento foi impactado pela guerra entre Rússia e Ucrânia, obrigando a equipe da Sad Cat Studios a se relocar. E, curiosamente, essa sensação de deslocamento não ficou só nos bastidores, porque ela aparece o tempo todo dentro do jogo, seja na ambientação, seja na própria construção do protagonista.
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Logo no início, REPLACED me joga em uma América alternativa dos anos 80, completamente dominada por um sistema corporativo opressor, e ao mesmo tempo me apresenta uma premissa que poderia facilmente ser só “mais um cyberpunk genérico”. No entanto, o jogo evita esse caminho. Aqui, eu controlo R.E.A.C.H., uma inteligência artificial criada para identificar compatibilidade de órgãos humanos — um conceito que já começa desconfortável e que rapidamente se torna ainda mais pesado quando o sistema literalmente toma o corpo do seu criador, Warren Marsh, após um acidente.
A partir desse momento, o jogo muda completamente de tom. Portanto, não se trata apenas de escapar de um laboratório ou sobreviver em um mundo hostil, mas sim de entender o que está acontecendo, e principalmente, o que significa existir dentro de um corpo humano sem nunca ter sido humano antes. E é exatamente aqui que REPLACED começa a se diferenciar.
Narrativa: quando o jogo realmente entende o que quer dizer
Eu não esperava que a narrativa fosse me prender tanto, mas ela prende — e prende forte.
Ao longo da campanha, REPLACED constrói sua história com calma, e isso faz toda a diferença. Em vez de despejar informação, ele me faz descobrir o mundo aos poucos, e consequentemente, eu começo a me importar com ele. Além disso, o jogo acerta muito ao mostrar a divisão social entre Phoenix City e os chamados “Disposals”, que são basicamente pessoas descartadas por um sistema que decide quem vale a pena viver inteiro e quem pode ser desmontado em partes.

Por outro lado, o que realmente me chamou atenção foi a evolução do próprio Reach. Inicialmente, ele age como uma máquina — lógico, direto, quase frio. Entretanto, conforme a história avança, ele começa a questionar, observar e até interpretar emoções. E isso não acontece de forma forçada. Pelo contrário, o jogo constrói essa transformação com consistência, o que torna tudo mais convincente.
Outro ponto importante: REPLACED não depende de dublagem para funcionar. Mesmo utilizando caixas de texto, a direção consegue transmitir peso emocional e ritmo narrativo com precisão. Em vários momentos, eu tive a sensação clara de estar assistindo algo cinematográfico, e não apenas jogando.
E sim, o jogo tem clichês do gênero, especialmente no tema “homem vs máquina”. Ainda assim, ele evita cair no óbvio, e por isso, quando o final chega, ele não soa vazio — ele fecha bem e deixa espaço para reflexão.
Gameplay: simples na base, eficiente na execução
No gameplay, REPLACED não tenta reinventar tudo, mas acerta no que importa.
Desde o início, o jogo mistura exploração, puzzles leves, momentos de furtividade e combate. E embora isso pareça padrão, a execução faz diferença. O ritmo de introdução das mecânicas é bem controlado, então eu nunca senti que estava sendo sobrecarregado. Pelo contrário, cada nova habilidade chega no momento certo, o que mantém o fluxo constante.

Agora, falando de combate — aqui o jogo sobe de nível.
Ele claramente se inspira em Batman: Arkham Asylum, mas não copia. Em vez disso, adapta a ideia para algo mais cadenciado. Ou seja, não adianta apertar botão sem pensar. Eu precisei observar padrões, reagir no tempo certo e escolher bem quando atacar. Além disso, os inimigos variam bastante: alguns exigem parry, outros só permitem esquiva, enquanto outros pedem uma abordagem mais estratégica.
Outro detalhe que eu gostei muito foi o uso da arma de fogo. Ela não é livre — depende de energia cinética. Portanto, eu preciso entrar no combate corpo a corpo para carregar ataques à distância. Isso cria um ciclo interessante e evita que o jogo vire um shooter genérico.
Sim, eu morri algumas vezes. Porém, na maioria dos casos, foi erro meu. E isso, pra mim, é sinal de um sistema bem feito.
Visual e som: aqui o jogo humilha fácil
Se tem uma coisa que REPLACED faz sem esforço aparente, é impressionar visualmente.
O estilo 2.5D em pixel art não é só bonito — ele é absurdamente detalhado. Cada cenário tem profundidade real, com elementos no fundo e no primeiro plano que criam uma sensação de mundo vivo. Além disso, a iluminação faz um trabalho excelente, usando neon, sombras e contraste para construir atmosfera.

Enquanto isso, o som acompanha esse nível. A trilha synth casa perfeitamente com o clima cyberpunk, e os efeitos de combate têm peso. Cada impacto parece forte, e isso ajuda muito na sensação de feedback.
Consequentemente, o conjunto audiovisual não é só “bonito de ver” — ele reforça tudo o que o jogo quer transmitir.
Exploração, conteúdo extra e o que poderia melhorar
Explorar REPLACED vale a pena, e eu recomendo fazer isso sempre que possível.
O jogo recompensa bem quem sai do caminho principal, oferecendo upgrades, itens, músicas e pedaços de lore que ajudam a construir o mundo. Além disso, as side quests são bem encaixadas e não quebram o ritmo, o que é algo raro.
No entanto, nem tudo é perfeito.

Eu senti falta de um sistema de seleção de capítulos, principalmente porque existem pontos sem retorno. Além disso, alguns checkpoints são mal posicionados, o que pode gerar repetição desnecessária em trechos mais difíceis. Também notei pequenos problemas visuais e algumas partes de plataforma que poderiam ter uma leitura melhor.
Ainda assim, nada disso chega a comprometer a experiência como um todo.
Conclusão: REPLACED não é só estilo — é conteúdo
Eu comecei REPLACED esperando um jogo estiloso, e terminei com algo muito mais interessante.
Ele não só entrega uma estética forte, como também sustenta isso com narrativa, gameplay e direção. Mais importante ainda, ele consegue fazer algo que poucos jogos fazem hoje: me fazer pensar depois que termina.
E, sinceramente, isso já coloca REPLACED acima de muita coisa que sai por aí.
A Comunidade Mega Drive recebeu uma chave para o review do jogo.






