Home New Reviews Tombwater: um soulslike de Velho Oeste mergulhado no horror lovecraftiano

Tombwater: um soulslike de Velho Oeste mergulhado no horror lovecraftiano

8
0
tombwater

O gênero soulslike já oferece uma boa variedade de experiências, mas a maioria dos representantes mais conhecidos aposta em ambientes tridimensionais. Tombwater segue por outro caminho: desenvolvido por Max Mraz, o jogo apresenta uma aventura de ação com visão superior, visual em pixel art e uma mistura curiosa de Velho Oeste com horror lovecraftiano.

.

Na pele de um pistoleiro, precisamos encontrar um velho amigo em uma cidade tomada por uma misteriosa praga. O resultado combina exploração, puzzles, combates exigentes e uma atmosfera bastante particular. Mas será que essa mistura consegue entregar uma experiência à altura das grandes referências do gênero?

Uma cidade amaldiçoada no Velho Oeste

Tombwater começa com uma chegada pouco acolhedora. Na pele de um pistoleiro, desembarcamos em uma cidade isolada para procurar um velho amigo, que agora ocupa o cargo de xerife. O lugar, porém, está tomado por uma praga misteriosa chamada loucura. As ruas abrigam monstros e moradores hostis, enquanto poucas pessoas parecem conservar a razão. O que deveria ser uma busca pessoal logo se transforma em uma jornada para compreender a maldição e descobrir o que aconteceu naquele território. O cenário também participa do mistério. E amplia a curiosidade.

A narrativa se desenvolve por meio de encontros, pistas e visões ligadas ao passado da cidade. Há referências a uma praga, a um culto e a forças sobrenaturais, mas o jogo não entrega todas as respostas de imediato. Essa abordagem combina com a estrutura de exploração: avançar significa encontrar novos caminhos e, ao mesmo tempo, montar uma imagem mais completa dos acontecimentos. O silêncio também inquieta.

A ambientação é um dos grandes acertos. O Distrito Central lembra uma cidade fantasma do Oeste, enquanto o cemitério, a floresta e a mansão apresentam atmosferas próprias. A trilha sonora acompanha essas diferenças e ajuda a estabelecer a personalidade de cada lugar. Em alguns momentos, a música de guitarra reforça o clima de faroeste; em outros, os sons e temas mais soturnos aproximam a aventura do horror lovecraftiano. Esses contrastes ajudam a evitar que os ambientes pareçam apenas corredores entre batalhas.

A direção visual em pixel art também contribui para esse resultado. Mesmo com uma apresentação simples, os cenários e criaturas conseguem transmitir estranheza e ameaça. Alguns monstros apresentam formas grotescas, com corpos deformados e elementos que parecem saídos de um pesadelo. O jogo começou como um projeto inspirado em Bloodborne, mas o cenário de Velho Oeste o afasta de uma simples imitação. Tombwater encontra um espaço próprio ao unir pistoleiros, magia sombria e criaturas que parecem incompatíveis com o mundo natural.

Exploração, progressão e orientação

A estrutura de Tombwater combina exploração de visão superior com elementos de metroidvania. Nem todas as áreas ficam disponíveis desde o começo: algumas exigem chaves, enquanto outras dependem de habilidades que o personagem aprende durante a jornada, como o gancho ou poderes mágicos. Quando essas ferramentas entram no repertório, caminhos antes inacessíveis passam a fazer sentido. Voltar a regiões conhecidas pode revelar atalhos, itens e novas rotas, fazendo com que a evolução do personagem também transforme a leitura que fazemos do mapa. Há novidades continuamente.

Esse modelo dá valor às descobertas. Equipamentos, melhorias e recursos encontrados pelo caminho podem fazer diferença nos confrontos, e a exploração costuma oferecer alguma recompensa concreta. Há também puzzles ambientais que interrompem o ritmo dos combates e pedem um pouco mais de atenção. A progressão, portanto, não depende apenas de derrotar inimigos e aumentar atributos: observar o cenário, encontrar ferramentas e entender como os espaços se conectam são partes importantes da experiência.

Nem sempre, porém, é fácil acompanhar o caminho. O mapa oferece várias direções possíveis, e a quantidade de ramificações pode tornar a navegação confusa. O registro de missões é econômico nas informações e nem sempre ajuda a lembrar qual era o próximo objetivo. Como não há indicações constantes de rota, o jogador precisa guardar referências e confiar na própria memória. Depois de uma pausa, pode ser difícil identificar onde parou ou qual passagem ainda precisa investigar.

Essa liberdade pode ser interessante para quem gosta de explorar sem marcadores, mas também gera momentos de frustração. É possível passar bastante tempo procurando a saída correta ou revisitando áreas sem ter certeza do que falta fazer. A progressão ainda pode limitar a exploração livre: em determinados momentos, é necessário obter uma ferramenta específica antes de avançar, e quem deseja simplesmente fortalecer o personagem talvez precise repetir trechos já conhecidos. O desenho do mundo tem boas ideias, mas uma orientação um pouco mais clara ajudaria a manter o ritmo.

Combate, classes e gerenciamento de recursos

O combate é o centro da experiência e exige mais do que atacar sem pensar. Esquivas, posicionamento e precisão fazem diferença, especialmente durante os primeiros encontros, quando o jogador ainda aprende o alcance dos golpes e o comportamento dos inimigos. Tombwater segue a tradição soulslike ao fazer da morte uma possibilidade frequente: ao cair, retornamos à última fogueira e deixamos para trás dinheiro e experiência acumulados desde o último ponto de descanso. Recuperar esses recursos exige voltar ao local da derrota, o que nem sempre é simples. Mesmo assim.

A escolha de classe permite definir o estilo inicial da aventura. São sete opções, cada uma com distribuição própria de atributos e equipamento de partida. Uma delas oferece um desafio adicional, enquanto as demais favorecem diferentes abordagens. A classe ocultista, por exemplo, aposta em magia e apresenta resistência ao acúmulo de loucura. Essa escolha influencia o começo, mas não impede que o jogador experimente outras armas e habilidades conforme encontra novas possibilidades.

O arsenal combina uma arma de fogo e uma arma corpo a corpo, com diferentes opções para cada categoria. Pistolas, espingardas e armas incomuns oferecem maneiras distintas de lidar com os adversários; no combate próximo, há desde chicotes até objetos pesados capazes de causar grande dano. Os ataques corpo a corpo também recuperam munição, incentivando o jogador a se aproximar em vez de depender exclusivamente dos disparos. Cada confronto envolve equilibrar distância, risco e disponibilidade de recursos.

A magia amplia ainda mais as possibilidades, com ataques como tentáculos sombrios, fogo e enxames de insetos. Seu uso, entretanto, aumenta a barra de loucura. Quando ela se completa, o personagem perde temporariamente o acesso aos poderes até descansar em uma fogueira. Esse sistema impede o uso indiscriminado das habilidades e acrescenta uma camada de planejamento. Amuletos e técnicas especiais de armas permitem ajustar a configuração, enquanto frascos de cura e munição exigem atenção. O resultado é um combate variado, exigente e baseado em escolhas.

Apresentação, acessibilidade e desempenho

A pixel art de Tombwater não tenta competir com o realismo de produções tridimensionais. Em vez disso, aposta em silhuetas marcantes, cenários sombrios e criaturas de aparência grotesca. A direção de arte consegue extrair bastante expressividade dessa apresentação, especialmente nos chefes e nos monstros que habitam as ruas. O contraste entre a simplicidade dos pixels e o horror das formas cria imagens memoráveis, sem depender de detalhes técnicos exuberantes para estabelecer desconforto.

A trilha sonora merece destaque porque ajuda a diferenciar as regiões e reforça o encontro entre faroeste e horror. O Distrito Central tem uma identidade musical própria, enquanto o cemitério, a floresta e a mansão seguem caminhos sonoros distintos. Quando música e efeitos estão funcionando, a ambientação ganha força e cada área transmite uma sensação particular. A trilha reforça o clima. O jogo também apresenta mais de vinte chefes, oferecendo encontros que exploram o repertório visual grotesco da aventura.

Um dos recursos mais interessantes está nas opções de dificuldade. Em vez de limitar a escolha a níveis predefinidos, Tombwater permite ajustar separadamente o dano que os inimigos causam e o dano que o jogador provoca. Isso abre espaço tanto para quem busca um desafio severo quanto para quem prefere reduzir a pressão dos confrontos e aproveitar a exploração, os puzzles e a história. A possibilidade de alterar esses parâmetros a qualquer momento torna a experiência mais flexível sem retirar os demais elementos que definem o jogo.

No desempenho, os relatos disponíveis apontam uma experiência estável no PC e também no Steam Deck, sem problemas técnicos relevantes durante as partidas. Os controles podem exigir adaptação, principalmente para quem ainda está se acostumando a mirar e esquivar nesse tipo de perspectiva. Depois de algum tempo, os comandos tendem a ficar mais naturais. Há reutilização de alguns recursos visuais de projetos anteriores do desenvolvedor, algo compreensível em uma produção solo. A adaptação acontece naturalmente em diferentes situações.

Considerações finais

Tombwater é uma alternativa interessante dentro de um gênero que costuma apostar em perspectivas tridimensionais. A mistura de faroeste, horror lovecraftiano e mecânicas soulslike cria uma identidade própria, enquanto a exploração com elementos de metroidvania oferece motivos para investigar cada canto da cidade. O combate apresenta variedade de armas e habilidades, e o sistema de loucura acrescenta uma camada estratégica que combina bem com a temática.

A navegação, por outro lado, poderia ser mais clara. A quantidade de caminhos e a simplicidade do registro de missões podem deixar o jogador perdido, especialmente depois de longas pausas. A progressão também pode exigir repetição de áreas para quem procura melhorar o personagem. Felizmente, as opções de dificuldade permitem adaptar os confrontos ao estilo de cada pessoa, sem obrigar todos a encarar o mesmo nível de exigência.

No conjunto, Tombwater entrega uma aventura envolvente, com boa direção de arte, trilha sonora marcante e sistemas de combate que recompensam a atenção. Não precisa reproduzir a fórmula dos grandes soulslikes em três dimensões para encontrar seu espaço. Se a ideia de explorar uma cidade amaldiçoada no Velho Oeste, enfrentar horrores cósmicos e descobrir seus segredos parece interessante, vale dar uma chance a essa jornada.

A Comunidade Mega Drive recebeu uma chave para review do jogo.

Comentários Facebook