Quando The Alters foi lançado, a 11 bit Studios entregou uma das experiências de ficção científica mais inteligentes dos últimos anos. A combinação entre gerenciamento de recursos, sobrevivência e conflitos psicológicos transformou Jan Dolski em um dos protagonistas mais interessantes dos videogames recentes. Diante disso, criar uma expansão parecia um enorme desafio.
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Afinal, a campanha principal encerrava sua história de maneira bastante conclusiva. Felizmente, The Last Variable evita simplesmente acrescentar mais conteúdo. Em vez disso, utiliza um dos finais alternativos para construir uma narrativa inédita, mudando completamente os objetivos do jogador.
O resultado se aproxima muito mais de uma sequência do que de um DLC tradicional. Embora preserve a essência do jogo original, a expansão apresenta mecânicas suficientes para justificar uma nova jornada inteira pelo planeta.
Um novo Jan, um novo propósito
A expansão acompanha uma linha do tempo alternativa em que Jan Cientista permanece sozinho no planeta depois que os demais Alters conseguem escapar. Anos mais tarde, já idoso, ele decide criar novas versões de si mesmo para continuar pesquisando um dos maiores mistérios daquele mundo: um misterioso Oasis capaz de sobreviver ao devastador ciclo solar que destrói praticamente toda a vida a cada treze anos.
Essa mudança altera completamente a estrutura narrativa. Enquanto o jogo base girava em torno da sobrevivência e da fuga, The Last Variable transforma a permanência em seu principal objetivo. A antiga base móvel desaparece e dá lugar a um enorme complexo subterrâneo, construído para resistir ao tempo. Consequentemente, o planejamento deixa de priorizar deslocamentos constantes e passa a focar expansão, infraestrutura e pesquisa científica de longo prazo.

Outro grande acerto está na escolha dos novos Alters. Desta vez, Jan cria apenas especialistas acadêmicos: Geólogo, Físico, Químico e Biólogo. Em teoria, isso deveria facilitar a convivência. Entretanto, acontece exatamente o contrário. Todos compartilham enorme inteligência, mas também exibem egos gigantescos, personalidades fortes e interpretações completamente diferentes sobre como solucionar o mesmo problema. O roteiro aproveita essa situação para aprofundar ainda mais a discussão sobre identidade, narcisismo e autoconhecimento. Em diversos momentos, administrar os conflitos entre versões igualmente brilhantes de uma única pessoa se torna muito mais complicado do que enfrentar qualquer ameaça do planeta.
Gameplay evolui sem abandonar suas raízes
A maior mudança da expansão está na própria estrutura da campanha. Sem a necessidade de fugir constantemente da radiação, o ritmo torna-se mais cadenciado. Agora, o desafio consiste em preparar toda a equipe para sobreviver aos ciclos extremos do planeta utilizando câmaras de criossono e enormes reservas de materiais orgânicos. Essa simples alteração muda completamente a forma de administrar recursos e transforma o tempo em um elemento estratégico, não apenas em uma ameaça constante.
Além da nova organização da base, diversas mecânicas inéditas ampliam significativamente a complexidade do gerenciamento. A terraformação passa a ocupar papel central, permitindo modificar diferentes regiões do planeta e desbloquear tecnologias antes inacessíveis. Novos módulos, laboratórios especializados, sistemas subterrâneos de distribuição de recursos e perigos ambientais, como terremotos, obrigam o jogador a revisar constantemente sua infraestrutura.

Mesmo mantendo o ciclo tradicional de exploração, mineração e pesquisa, a expansão coloca muito mais peso na investigação científica. Grande parte do progresso depende da análise de amostras coletadas durante as expedições e da construção de hipóteses sobre o funcionamento do Oasis. Aos poucos, o tradicional gerenciamento de recursos dá espaço para um verdadeiro projeto científico. Essa mudança torna a experiência ainda mais estratégica. Entretanto, quem concluiu o jogo original há muito tempo provavelmente precisará de algumas horas para reaprender todas as mecânicas, já que a quantidade de novos sistemas é bastante significativa.
A melhor narrativa continua sendo a humana
Assim como no jogo original, o verdadeiro coração de The Last Variable continua sendo a relação entre Jan e suas diferentes versões. Embora exista menos variedade de perfis profissionais do que na campanha principal, a expansão compensa isso aprofundando os conflitos internos dos novos cientistas. Cada Alter possui sua própria história, suas inseguranças e uma maneira particular de interpretar o papel que desempenha naquele planeta aparentemente esquecido pela humanidade.
A convivência entre esses gênios rapidamente se transforma em um enorme desafio administrativo. O Geólogo frequentemente abandona projetos no meio do caminho devido ao excesso de entusiasmo. Enquanto isso, o Físico demonstra um ego gigantesco e acredita constantemente estar acima dos demais. Essas diferenças criam situações inesperadas, tornando impossível simplesmente distribuir tarefas de maneira automática. Manter a moral elevada continua sendo tão importante quanto garantir alimento ou energia para a base.

Mais uma vez, Alex Jordan realiza um trabalho extraordinário na dublagem. Mesmo interpretando diferentes versões da mesma pessoa, cada Jan transmite personalidade própria apenas pela forma de falar, pelos pequenos trejeitos e pelas reações durante os diálogos. É impressionante como o ator consegue transformar pequenas diferenças de entonação em personagens completamente distintos. Graças a essa atuação, os dilemas emocionais continuam sendo tão impactantes quanto as decisões relacionadas à sobrevivência.
Vale a pena?
Poucas expansões conseguem justificar sua existência sem parecer apenas conteúdo reaproveitado. Felizmente, The Last Variable evita completamente esse problema. Em vez de repetir a estrutura da campanha principal, a 11 bit Studios cria novos objetivos, apresenta sistemas inéditos e desenvolve uma história que complementa o universo de The Alters de maneira extremamente natural.
Embora algumas mecânicas possam parecer intimidadoras para quem está retornando depois de muitos meses, o esforço rapidamente é recompensado. A nova estrutura baseada em pesquisa científica, terraformação e gerenciamento de longo prazo oferece desafios bastante diferentes daqueles encontrados na campanha original. Além disso, a excelente escrita continua explorando questões filosóficas profundas sem jamais perder o foco na sobrevivência.

Com aproximadamente vinte horas de conteúdo inédito e excelente fator de rejogabilidade, The Last Variable entrega exatamente aquilo que uma expansão deveria oferecer: uma experiência familiar, porém suficientemente diferente para justificar uma nova aventura completa. Se The Alters já era uma das melhores obras de ficção científica dos videogames modernos, esta expansão apenas reforça esse status e demonstra que a 11 bit Studios ainda possui muito a explorar nesse fascinante universo.
A Comunidade Mega Drive recebeu uma chave para review do jogo.






