Arashi Gaiden é mais uma prova de que a indústria brasileira de jogos continua evoluindo e entregando experiências cada vez mais criativas. Desenvolvido pela Statera Studio e publicado pela Nuntius Games, o título aposta em uma combinação pouco convencional de ação, estratégia e quebra-cabeças, criando uma identidade própria dentro do gênero. Embora sua apresentação remeta aos clássicos da era 16 bits, basta alguns minutos para perceber que a simplicidade visual esconde uma jogabilidade surpreendentemente sofisticada.
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À primeira vista, é fácil imaginar que estamos diante de um hack and slash em pixel art inspirado em jogos como Katana ZERO. Afinal, há ninjas, dashes rápidos e confrontos aparentemente frenéticos. No entanto, essa impressão desaparece logo nas primeiras fases. Em vez de incentivar ataques impulsivos, Arashi Gaiden exige observação, planejamento e precisão. Cada sala funciona como um pequeno quebra-cabeça, onde um único movimento mal calculado pode comprometer toda a estratégia.
Essa abordagem faz com que o jogo lembre clássicos como Goof Troop e até puzzles do estilo Sokoban, mas com uma dinâmica muito mais agressiva e veloz. O jogador precisa analisar o posicionamento dos inimigos, utilizar o cenário ao seu favor e encontrar a sequência ideal de movimentos para eliminar todas as ameaças sem desperdiçar recursos. É uma fórmula simples de entender, mas extremamente difícil de dominar.
Mesmo sendo uma aventura relativamente curta, Arashi Gaiden consegue manter o interesse do início ao fim graças à constante introdução de novas mecânicas. A cada estágio surgem obstáculos inéditos, habilidades adicionais e inimigos que obrigam o jogador a abandonar estratégias antigas. O resultado é um dos indies brasileiros mais criativos dos últimos anos, oferecendo uma experiência capaz de agradar tanto fãs de jogos de ação quanto quem aprecia desafios estratégicos.
História | Simples, funcional e sem perder tempo
Arashi Gaiden acompanha Shinji Arashi, um jovem ninja encarregado de recuperar poderosos artefatos que caíram nas mãos de uma organização criminosa. Ao longo da jornada, ele enfrenta mercenários, ninjas rivais e diversas criaturas enquanto percorre diferentes regiões do Japão em busca dos responsáveis pelo caos que ameaça o país. A premissa é bastante tradicional, mas funciona como um bom ponto de partida para justificar a ação constante.
Diferentemente de muitos títulos modernos, porém, Arashi Gaiden nunca tenta transformar sua narrativa no centro da experiência. Os diálogos são curtos, os acontecimentos seguem um ritmo acelerado e praticamente todas as cenas existem apenas para preparar o próximo desafio. É uma decisão consciente de design, já que o foco do jogo está completamente voltado para sua jogabilidade.

Isso não significa que o enredo seja descartável. Conforme a campanha avança, alguns personagens secundários ajudam a desenvolver o passado de Shinji e ampliam o contexto do conflito principal. Não há grandes reviravoltas nem momentos particularmente emocionantes, mas existe curiosidade suficiente para manter o jogador interessado até os créditos finais.
No fim das contas, a história cumpre exatamente o papel que deveria cumprir. Ela fornece motivação para a aventura sem interromper constantemente o ritmo da ação. Em um jogo cuja maior virtude está na forma como desafia o jogador a cada nova sala, essa objetividade acaba sendo uma qualidade, e não uma limitação.
Jogabilidade | Um quebra-cabeça vestido de jogo de ação
O grande diferencial de Arashi Gaiden está na sua jogabilidade. Embora a apresentação remeta a um tradicional jogo de ação em alta velocidade, a experiência se revela muito mais próxima de um quebra-cabeça estratégico. Cada cenário funciona como um pequeno tabuleiro onde posicionamento, observação e planejamento são tão importantes quanto a velocidade dos reflexos. Avançar sem pensar quase sempre significa uma derrota rápida.
A movimentação acontece sobre um sistema de grid bastante inteligente. Shinji desliza em linha reta até encontrar um obstáculo, e somente depois dessa ação os inimigos executam seus próprios movimentos. Essa mecânica cria uma dinâmica semelhante a uma partida de xadrez, em que cada decisão desencadeia uma reação do cenário. Eliminar um inimigo não depende apenas de atacá-lo, mas de prever onde ele estará após cada turno e calcular exatamente onde o personagem terminará seu deslocamento.

Apesar desse forte componente estratégico, Arashi Gaiden nunca transmite a sensação de ser lento. Pelo contrário, existe uma fluidez impressionante entre planejamento e execução. Depois de encontrar a solução para uma sala, tudo acontece em poucos segundos, transformando uma sequência de movimentos cuidadosamente pensada em uma verdadeira coreografia de golpes, esquivas e eliminações. Essa combinação entre raciocínio e velocidade faz com que o jogo lembre, ao mesmo tempo, a lógica de Goof Troop e a agressividade visual de títulos como Katana ZERO, mas com personalidade suficiente para construir sua própria identidade.
Outro mérito importante é a maneira como o jogo evita a repetição. Novas armadilhas, obstáculos e comportamentos inimigos são introduzidos constantemente, obrigando o jogador a adaptar sua estratégia. Em vez de simplesmente aumentar a quantidade de adversários na tela, Arashi Gaiden apresenta novas situações que exigem soluções diferentes, mantendo cada fase interessante do início ao fim.
Progressão, habilidades e chefes | Novas ferramentas mudam completamente o combate
A campanha é dividida em sete capítulos compostos por diversas salas de desafio. Em cada uma delas, o objetivo normalmente é eliminar todos os inimigos para abrir o caminho até a próxima área, embora alguns cenários também exijam a ativação de mecanismos ou a interação com elementos específicos do ambiente. Essa estrutura mantém o ritmo sempre acelerado e transforma cada tela em um novo desafio estratégico.
Conforme a aventura avança, Shinji desbloqueia habilidades que expandem significativamente as possibilidades de combate. Entre elas estão shurikens para ataques à distância, flechas capazes de alterar a direção do deslocamento e outras técnicas que modificam completamente a maneira de resolver cada situação. O interessante é que essas habilidades não servem apenas para tornar o personagem mais poderoso; elas introduzem novas possibilidades de raciocínio e fazem com que desafios antigos passem a ser encarados sob outra perspectiva.

Para evitar que esses recursos sejam utilizados sem critério, todas as habilidades consomem mana. Como esse recurso é limitado, o jogador precisa decidir cuidadosamente quando vale a pena utilizá-las e quando é melhor confiar apenas na movimentação básica. Essa gestão de recursos adiciona uma camada estratégica bastante interessante e impede que as técnicas especiais eliminem a necessidade de planejamento.
As batalhas contra os chefes representam o ponto alto dessa evolução. Cada confronto apresenta mecânicas próprias e exige domínio das habilidades aprendidas até aquele momento. Em vez de simplesmente aumentar a barra de vida dos inimigos, o jogo cria encontros que funcionam quase como grandes quebra-cabeças, exigindo observação, paciência e execução precisa. É justamente nesses momentos que Arashi Gaiden demonstra toda a inteligência de seu design de fases.
Visual e parte sonora | Pixel art de qualidade, mas com pouca variedade
Visualmente, Arashi Gaiden demonstra um cuidado evidente com sua direção de arte. O estilo em pixel art remete aos clássicos da era 16 bits, mas incorpora animações fluidas e efeitos modernos que tornam cada golpe extremamente satisfatório. As explosões de partículas, os rastros deixados pelos ataques e a velocidade das animações ajudam a transmitir impacto durante os combates, reforçando a sensação de que cada movimento foi executado com precisão.
Os personagens são bastante expressivos e possuem animações muito bem construídas, especialmente durante os confrontos contra os chefes. O problema aparece na variedade dos cenários. Embora cada capítulo apresente novas mecânicas, boa parte das fases compartilha uma identidade visual semelhante, fazendo com que alguns ambientes passem a impressão de serem variações do mesmo tema. Não chega a comprometer a experiência, mas uma maior diversidade de biomas teria enriquecido ainda mais a campanha.

Essa sensação também se estende aos inimigos. Apesar das diferenças mecânicas entre eles, muitos adversários possuem um visual parecido, o que reduz parte da sensação de descoberta conforme a aventura avança. Felizmente, a criatividade das situações propostas compensa essa limitação, mantendo o interesse do jogador graças ao excelente design das fases.
Na parte sonora, o resultado é igualmente positivo. A trilha sonora acompanha bem o ritmo acelerado da ação, utilizando melodias inspiradas na cultura oriental sem exagerar nos clichês. Talvez não seja uma daquelas trilhas inesquecíveis, mas ela cumpre seu papel com competência, enquanto os efeitos sonoros ajudam a transmitir impacto aos golpes, habilidades e deslocamentos. O conjunto audiovisual funciona muito bem e reforça a identidade própria criada pelo jogo.
Problemas técnicos | Pequenos tropeços em uma experiência bastante sólida
Apesar de entregar uma jogabilidade extremamente refinada, Arashi Gaiden não está completamente livre de problemas. Durante a campanha é possível encontrar alguns bugs ocasionais, incluindo situações em que o personagem pode ficar preso ou obrigar o jogador a reiniciar uma fase. Felizmente, essas ocorrências são pouco frequentes, mas acabam interrompendo o ritmo em momentos que exigem bastante concentração.
Outro aspecto que poderia receber um pouco mais de atenção é a interface. Em determinadas situações, principalmente quando novas mecânicas são apresentadas, o jogo poderia explicar melhor a prioridade de algumas ações e determinados comportamentos dos inimigos. Boa parte do aprendizado acontece por tentativa e erro, algo que combina com a proposta do game, mas que pode gerar dúvidas desnecessárias nos primeiros capítulos.

A duração também pode dividir opiniões. A campanha pode ser concluída em aproximadamente cinco ou seis horas, dependendo da habilidade do jogador. Para alguns, esse tempo parecerá curto, especialmente considerando a qualidade das mecânicas. Por outro lado, a constante introdução de novos desafios impede que a experiência se torne repetitiva, fazendo com que praticamente todo o conteúdo apresentado seja relevante.
Ainda assim, essas limitações passam longe de comprometer o resultado final. A criatividade da jogabilidade e a excelente construção dos desafios fazem com que os pequenos problemas técnicos sejam facilmente superados pela qualidade geral da experiência.
Vale a pena? | Um dos indies brasileiros mais criativos dos últimos anos
Arashi Gaiden consegue algo raro: apresentar uma ideia simples e desenvolvê-la com enorme competência. Em vez de apostar apenas na velocidade típica dos jogos de ação, o título transforma cada combate em um quebra-cabeça estratégico, exigindo planejamento, precisão e domínio das habilidades adquiridas ao longo da campanha. É uma proposta diferente da maioria dos jogos do gênero e justamente por isso se destaca.
A excelente progressão das mecânicas faz com que o jogador esteja sempre aprendendo algo novo, enquanto os chefes funcionam como testes naturais de tudo o que foi assimilado até aquele momento. Mesmo com uma campanha relativamente curta e alguns problemas técnicos pontuais, o ritmo permanece consistente do início ao fim, sem recorrer a conteúdo repetitivo apenas para aumentar artificialmente a duração.
Também merece destaque o trabalho realizado pela Statera Studio e pela Nuntius Games, que entregam um projeto com identidade própria e demonstram o alto nível alcançado pelo desenvolvimento independente brasileiro. Arashi Gaiden não tenta copiar grandes sucessos do mercado; utiliza referências conhecidas para construir uma experiência bastante original, inteligente e extremamente divertida.
Para quem aprecia jogos que recompensam observação e estratégia tanto quanto habilidade, Arashi Gaiden é uma recomendação fácil. Trata-se de uma aventura criativa, desafiadora e muito bem executada, que merece espaço entre os melhores indies nacionais lançados nos últimos anos.
A Comunidade Mega Drive recebeu uma chave para o review do jogo.






