SEGA e os jogos de esporte: uma história de superação e sucesso

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Os jogos de esporte fazem parte de um filão muito lucrativo hoje, mas, apesar do sucesso de franquias como Madden e FIFA, podemos dizer que o gênero tem um público bastante restrito. Você deve se lembrar, na época de escola, daqueles caras que curtiam praticar esportes nas aulas de Educação Física, enquanto outros odiavam e queriam ficar longe das quadras… Pois então, isso acontece de forma muito parecida com os jogos de esporte: há aqueles que amam e aqueles que odeiam, sendo difícil achar um meio termo.
Independentemente do seu gosto pelos jogos de esporte, vale a pena conhecer a história da relação entre a SEGA e os games de gênero esportivo. Como sabemos, a empresa foi um verdadeiro ícone nesse setor, ajudando a estabelecer novos rumos para a indústria dos videogames.

Arnold Palmer (1989)

Quem não se lembra, por exemplo, de Joe Montana (futebol americano), Arnold Palmer (golfe), David Robinson (basquete) e Evander Holyfield (boxe)? Esses grandes atletas, ícones do esporte americano, fizeram parte da história da SEGA. Mas como isso aconteceu?

Esse lance de usar nomes de atletas na capa dos jogos da SEGA começou no Master System. O primeiro jogo foi “Reggie Jackson Baseball”, que trouxe um avançado realismo para a época, com uma jogabilidade bem melhorada em relação a outros jogos de beisebol até então lançados. Jackson estava aposentado há um ano quando a empresa comprou as licenças para uso de seu nome, mas isso não atrapalhou em nada seus objetivos, pois o que interessava era o fato dele ser popular, um “bam-bam-bam” do beisebol nos EUA. Depois foi a vez do jogo “Walter Payton Football”, que levava o nome de um dos maiores running backs da história da NFL, campeão do Super Bowl de 1986.

Nessa época, a SEGA deixou com a empresa de brinquedos Tonka a tarefa de comercializar o Master System. Segundo relatos, ela investiu cerca de 30 milhões de dólares para alavancar o console nos EUA! Importante destacar que a Tonka teve papel fundamental nessa questão de licenciamento de uso do nome de grandes personalidades do esporte americano nos jogos da SEGA. Com experiência na área, ela investiu em marketing para criar a imagem de que o Master System era um console que possuía, em sua biblioteca de jogos, uma linha exclusiva de esporte, algo que a concorrente Nintendo não tinha. A antiga série “Great” que então existia (Great Soccer, Great Hockey, Great Football), foi sendo substituída pelos jogos com nomes de jogadores reais.

A SEGA da América, mais precisamente seu novo presidente, Michael Katz, deu continuidade a essa interessante jogada de marketing na era 16-bit, que acabou se mostrando bem-sucedida para a empresa e para o futuro do mercado de videogames.

O objetivo de Katz era achar uma maneira de enfrentar o monopólio da Nintendo, que fazia, de forma muito competente, as conversões dos jogos de arcade. Com poucas desenvolvedoras disponíveis para lançar seus jogos no Genesis (já que as principais delas tinham contrato exclusivo com a Nintendo!), a companhia apostou na fórmula de produzir mais jogos em território americano e reforçar o uso do nome de grandes personalidades populares nos EUA em seus cartuchos.

No início do Genesis/ Mega Drive, títulos japoneses já existentes ganhavam, nos Estados Unidos, uma “maquiagem” com nomes de personalidades conhecidas nos EUA. O jogo do Genesis “Tommy Lasorda Baseball”, por exemplo, era o relançamento do japonês “Super League”. Tommy Lasorda era uma figura bem conhecida entre os americanos e, dessa maneira, chamou bastante a atenção. Lasorda foi arremessador do Brooklyn Dodgers (1954–1955) e do Kansas City Athletics (1956). Depois foi técnico do Los Angeles Dodgers (1976–1996). O mesmo “esquema” foi usado nos títulos “Arnold Palmer Golf” e “Pat Riley Basketball “, para citar apenas alguns.

 

 

As adaptações de títulos já existentes no Japão para atrair o público americano foram positivas, mas não eram suficientes para a SEGA atingir seus arrojados objetivos. “Temos que criar um departamento específico na SEGA americana, que faça os games de esportes conhecidos dos americanos. A SEGA japonesa, por sua vez, deve se concentrar nos games de ação e de estilo arcade, áreas em que ela tem expertise”, disse Katz, durante um telefonema para seus superiores.

Michael Katz

Os chefões da empresa, lá no Japão, não estavam gostando muito da ideia de gastar um montão de dinheiro para garantir as licenças para uso do nome dos expoentes atletas americanos. Michael Katz precisou persuadir seus superiores, dizendo que, caso conseguisse convencer os consumidores americanos de que os melhores jogos de esporte estavam na máquina 16-bit da SEGA, os japoneses logo iriam reconhecer o grande potencial do console.

Ninguém imaginava, nesta época, que essa jogada de criar um departamento independente de criação de jogos de esporte nos EUA seria um dos maiores responsáveis pelo sucesso da SEGA nos próximos anos. Ao invés de simplesmente dar uma “roupagem americana “ aos jogos japoneses, os executivos da SEGA da América almejavam centrar seus esforços naquilo que seu público queria. Livre das amarras, eles começariam a produzir games de qualidade, para um público exigente e que valorizava muito o produto – no caso, os jogos de esporte.

O plano da SEGA, comandada por Katz, era garantir a qualidade dos títulos, oferecendo bom gameplay e rejogabilidade. Uma reputação construída na qualidade era a maior arma para brigar com a gigante Nintendo, que dominava o mercado com folga.

James “Buster” Douglas Knockout Boxing (1990)

Como já dito, os chefões da SEGA, lá no Japão, não estavam gostando muito da ideia de desembolsar fortunas para satisfazer o plano de Katz, mas a verdade é que nem todas as licenças para uso do nome de atletas eram caras. Foi o caso do campeão peso-pesado James “Buster” Douglas. O pugilista acabou perdendo o cinturão logo depois que a Sega assinou o contrato com ele, mas isso não prejudicou a campanha de marketing da empresa. Relacionar o jogo ao nome do campeão, mesmo após um reinado curto no boxe, foi muito lucrativo. Mesmo porque investir em boxe era bem menos custoso em relação ao futebol americano, beisebol ou hockey… Diante do sucesso, Katz e seu time continuaram a busca por outros grandes nomes em cada modalidade esportiva, determinados a convencer a SEGA do Japão de que essa política era viável – e lucrativa.

Nem todos sabem, mas a relutância dos big-boss da SEGA japonesa em assinar contratos caros com esportistas quase causaram a perda do atleta Joe Montana para a Nintendo. [nota do autor: para mim, que fui fã de carteirinha da série Joe Montana, no Mega Drive, isso seria aterrador!] Katz insistiu bastante na ideia e, para alegria da nação de fãs de football [e minha], finalmente trouxe o ex-quarterback para o lado da Sega.

A SEGA e a Nintendo travaram uma luta para ter a licença do nome de Joe Montana, e a Nintendo acabou até oferecendo mais dinheiro, mas o próprio Montana preferiu assinar com a SEGA! Apesar do stress gigantesco que antecedeu essa negociação, dizem que Joe apareceu no escritório da empresa bem à vontade e colocou o cheque milionário, que havia acabado de receber, no bolso de trás da calça jeans. Katz ficou imaginando se o quarterback não esqueceria de tirar o cheque antes de colocar a calça na máquina de lavar… A franquia Joe Montana acabou sendo a grande rival da “John Madden”, da EA Sports, e o sucesso do game convenceu a SEGA do Japão a apostar no projeto de Katz de investir em licenças nas franquias de esporte.

O nascimento da SEGA Sports

Em 1993, a SEGA decidiu reunir seus títulos de esporte sob uma única bandeira. A decisão não foi tomada durante uma reunião de escritório ou algo do tipo, e sim foi o resultado de anos de práticas na área dos jogos esportivos. Após tanta luta para se estabelecer no mercado, enfim era hora de estabelecer uma marca!

A popularidade do gênero esportivo na América e o sucesso dos adversários da SEGA, como a Electronic Arts, acabaram por convencer a SEGA da América a criar a logo “SEGA Sports”. Conta a história que a escolha desse nome foi meio engraçada… Os executivos chamaram um time de “consultores” para decidir qual nome iriam dar para essa linha esportiva, e após as reuniões, vieram com a decisão: ela se chamaria “SEGA Sports”! Simples assim. Criativo ou não, esse nome finalmente levantou uma bandeira importante, marcando uma nova era dos jogos de esporte no mercado de videogame.

Oficialmente, a SEGA Sports foi inaugurada em junho de 1993. Vários quiosques de demonstração surgiram pelos EUA, mostrando vários jogos da nova linha. O Genesis estava crescendo rapidamente nessa época, graças ao sucesso de Sonic e dos preços competitivos que a SEGA adotou. A nova linha, combinada com os novos projetos e um enorme orçamento de marketing, mostrou às empresas desenvolvedoras que o boom do Genesis e sua recente dominação no mercado americano não foi um acaso, mas o resultado da aparição de jogos de qualidade e de uma campanha de marketing agressiva. Também reafirmou o compromisso de fornecer uma linha esportiva dedicada aos proprietários do Genesis, um grande diferencial em relação às ofertas aleatórias da Nintendo no gênero.

A SEGA introduziu de forma massiva a nova marca aos consumidores, com publicações na edição de agosto/ setembro de 1993 da revista Sega Visions. Na capa e em quatro páginas internas, a publicação detalhava os novos jogos para o Genesis e SEGA CD, assim como diversos ports para o Game Gear, incluindo Joe Montana Football.

Mesmo assim, o lançamento não teve sucesso imediato e teve que ser conquistado aos poucos. Embora fossem inicialmente programados para o Genesis e SEGA CD em maio, os primeiros comerciais não tinham atingido a televisão e a mídia impressa até o outono. Assim, apenas alguns títulos foram capazes de exibir, no início, o logotipo “SEGA Sports” no canto superior direito da capa dos games. NFL ’94 foi o primeiro jogo a realmente anunciar a marca, apresentando um anúncio engraçado no outono de 1993, que tinha psiquiatras analisando Joe Montana.  O anúncio trazia o slogan “SEGA sweats the details”, algo como “SEGA se preocupa com os detalhes”, na tradução livre.

No ano seguinte, a logotipo foi exibida em todos os títulos esportivos da SEGA, incluindo NBA Action, Virtua Racing e World Series Baseball, feitos com recursos tecnológicos impressionantes (e caros), com movimentação digitalizada dos jogadores. Com uma enorme presença nas prateleiras de jogos e na mídia, e cobrindo praticamente todos os esportes possíveis, “SEGA Sports” estava rapidamente se tornando uma parte fundamental do plano da empresa para o sucesso.

A maioria dos jogadores de hoje estão familiarizados com o “SEGA Sports” graças ao seu brilho no Dreamcast e nos consoles posteriores. Franquias como NBA 2K, MLB 2K e a fenomenal série NFL 2K alcançaram popularidade incrível e chegou a ofuscar o brilho do poderosa Electronic Arts, detentora da aclamada franquia Madden, de futebol americano.

A “SEGA Sports” lentamente foi sendo reconhecida como sinônimo de qualidade na área dos jogos esportivos e considerada, por muitos, como a principal concorrente de muitas franquias da Electronic Arts, até que foi descontinuada em 2005, sem nenhuma cerimônia. No entanto, a marca foi formalmente introduzida no Genesis, plataforma onde prosperou de forma incrível. A marca contribuiu – e muito – para elevar a SEGA a um novo patamar, sendo uma das responsáveis pelo sucesso da empresa e, claro, do nosso tão querido Genesis/ Mega Drive.

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Sobre: Felipe Betschart

Felipe Betschart

Gamer desde criancinha. Cidadão que criou o "Canal Jogo ao Vivo", no Youtube

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