Exile (1991)

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Jogos de RPGs para Mega Drive sempre me pareceram meio que obscuros, justamente porque quando muito jovem eu não sabia nada de nada de inglês e só fui realmente jogar esse estilo somente no Super Nintendo a partir de 1994, ou seja, coincidiu com o momento em que comecei a engatinhar na língua britânica. Visto isso, na caçada por grandes jogos desse gênero para o console de 16 bits da sega, há alguns anos atrás, me deparei com um dos jogos mais subversivos e controversos do catalogo megadriveano.

Exile ou XZR, como é conhecido no japão devido a pronúncia do título naquela terra, foi lançado em 1991 pela subsidiária da Telenet Japan, a Riot, e lançando nos Estados Unidos pela Renovation no mesmo ano. Pesquisando um pouco na internet, descobri que na verdade Exile é uma sequência de um jogo que nunca foi lançado no ocidente, o original XZR: Idols of Apostate, lançado em 1988 para computadores japoneses como o MSX2 e  NEC PC-8801. E o mais impressionante é que além de sequência, Exile também é um remake da versão original de XZR II: The Conclusion, lançado no mesmo ano que seu predecessor, porém, alguns meses depois.

Publicidade do jogo vinculada nas revistas.

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Exemplar norte americano do meu acervo.

Exemplar norte americano do meu acervo.

Então, sabendo-se que o jogo se trata, na verdade, de uma continuação, as cenas da introdução retratam levemente sobre os acontecimentos do primeiro jogo, onde no oriente médio do século XII da era cristã, é contado a história do assassino/guerreiro do deserto, conhecido como o sírio Sadler, que em uma revolta contra a opressão de uma grande nação, mata o próprio Califa (que no primeiro jogo é revelado ser seu pai). E então, o jogo atual se situa no período histórico das grandes Cruzadas que devastaram o oriente médio. Sadler tem como objetivo conter o avanço do exército dos Cruzados Cristãos (que devido à censura norte americana foi renomeado como exército de Luciel), tentar unir o mundo somente sobre um só deus e conseguir a paz mundial tão perseguida por todos. Nesse interim, Sadler tem a ajuda de seus aliados:

Capa da versão japonesa.

Capa da versão japonesa.

rumiRumi, uma agente do vilarejo das dunas (Vilarejo dos assassinos na versão original) e especialista em habilidades acrobatas e é fluente em 8 línguas;

 

kindiKindi, um brutamonte treinador de soldados que é conhecido por nunca ter precisado usar sua força total em combates;

 

fakilFakil, o mago do vilarejo das dunas que foi responsável por ensinar suas artes a Sadler através da pedra mágica de Kamul.

 

Contra capa da versão japonesa.

Contra capa da versão japonesa.

O mais interessante em seu enredo são as referencias históricas e lendárias, misturadas com a fantasia típica dos RPGs tradicionais. O cenário do jogo se passa em nosso planeta terra em várias regiões como médio oriente entre os rios Tigre e Eufrates, num templo chamado Homis Shrine que evoca as características do templo de Salomão e também a um ritual maçônico; na França, onde um vilarejo alinhado com o exército dissidente e herético (Templários na versão japonesa) é completamente obliterado pelos cruzados cristãos e sua população crucificada e queimada (cena completamente apagada da versão americana); na Índia onde um príncipe chamado Larma (possivelmente baseado na figura lendária de Rama) que é quase destruído na tentativa de praticar um antigo ritual para ressuscitar o profeta Mani (responsável pela corrente filosofica religiosa do Maniqueísmo); no Camboja em um templo cheio de perigos; no Japão com o objetivo de ativar o artefato sagrado Holimax (lembra muito o cálice sagrado) com as mandalas do monge Ninkan (conhecido na História pelo culto sexual Tachikawa-ryu, muito parecido com o tantra indiano).

Introdução do jogo.

Introdução do jogo.

Mapa com localidades reais.

Mapa com localidades reais.

Além de toda essa salada mista de regiões reais, podemos somar ainda a viajem no tempo, onde é possível vislumbrar personagens como Pitágoras na Grécia Antiga no meio de um festival para o deus do vinho (Baco na versão japonesa) e a sua academia na Magna Grécia (colônias gregas no sul da Itália).

Várias modificações em sua localização ocidental foram feitas devido ao nome de narcóticos dos itens de cura e de magia como hashish, coca, ópio, LSD, marijuana, peiote e o cigarrinho do personagem principal em seu avatar que foi totalmente eliminado no Mega Drive tanto na versão americana, quanto na japonesa e foi mantido somente na versão de PC-Engine CD, e as já tradicionais censuras na maioria das referencias religiosas já citadas. O principal ponto negativo da tradução norte americana é a qualidade dos diálogos feitos pela Renovation que infelizmente não chegam nem aos pés da fidelíssima tradução feita pela Working Designs para o PC-Engine CD.

Cena de crucificação censurada na versão norte americana.

Cena de crucificação censurada na versão norte americana.

Cena de nudês no festival de baco da versão japonesa.

Cena de nudez no festival de baco da versão japonesa.

 

 

 

 

 

Entrando, no quesito de jogabilidade, é possível afirmar que existem dois tipos distintos de jogo: o primeiro é o modo RPG com a tradicional visão aera do cenário somente nos vilarejos e em locais de investigação com NPCs; o segundo é o modo ação nas dungeons e em locais de combate. O sistema de evolução de personagem e de compra de equipamentos é idêntico a de outros RPGs mais tradicionais onde a aquisição de experiência conquistada nos combates é indispensável para o prosseguimento da jogatina.

Batalha contra o pássaro mostro lendário Garuda.

Batalha contra o pássaro monstro lendário Garuda.

Cena que provavelmente inspirou a arte da capa da versão americana.

Cena que provavelmente inspirou a arte da capa da versão americana.

O menu do jogo lembra bastante aqueles bem simples encontrados em franquias como Ys e Dragon Quest, mas nem por isso deixa de ter o seu charme retrô. Na tela do jogo é possível visualizar as barras de HP (Hit Points) e MP (Magic Points) muito parecidas com as da série Ys e também são visíveis duas pequenas barras, uma chamada de AP (Attack Power) e a outra chamada de AC (Armor Class) que vão aumentando conforme a evolução do personagem. A resposta dos comandos de ataque e de salto são excelentes e não te deixará na mão nas partes mais acirradas da ação. Talvez um ponto não tão positivo seja a facilidade no combate com os chefes que, se comparada à versão do PC-Engine CD, suas batalhas são realmente bem menos desafiadoras. Como em outros jogos de RPG com mais elementos de ação daquela época, esse aqui também é bem curto e pode ser facilmente terminado com duas ou três horas de jogatina.

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Exploração no modo RPG.

Exploração no modo RPG.

Graficamente falando, o jogo é bem bonito tanto no modo RPG quanto no modo ação, onde a movimentação do personagem é bem fluida. Os cenários no modo ação também são bem detalhados em certas partes, mas se comparados com a versão de PC-Engine CD a versão de Mega Drive fica um pouco aquém no quesito paleta de cores e os pixels são um pouco mais estourados, mas mesmo assim a diferença gráfica não é assim tão gritante. As cutscenes são bem feitas e só são inferiores à versão do PC-Engine CD justamente por causa da limitação do cartucho.

 

 

A trilha sonora continua sendo muito boa, casa bem com cada localidade do jogo e tem batidas eletrônicas quase que dançantes em algumas partes e que animam bastante a jogatina, mantendo, assim, a qualidade sonora dos jogos produzidos pela Telenet Japan para o Mega Drive. Apesar de evidentemente não ter a mesma qualidade das composições em CD da versão do console da NEC, algumas músicas como a da primeira dungeon são mais interessantes nesta versão.

Exile no PC-Engine CD (Turbografx CD) foi excelentemente portado com uma ótima localização feita pela Working Designs, e que praticamente não deixa nada a desejar em relação à sua versão nipônica. Houve também uma sequência direta e bem conceituada chamada Exile: Wicked Phenomenon que também foi localizada pela já citada Working Designs.

Detalhes bonitos no cenário.

Belos detalhes inseridos no cenário.

Exile pôde ter sido bastante comparado com jogos daquele período como Ys III, Sorcerian, Cadash e Zelda II, que também exploravam mais as partes de ação do que as de RPG e eram bastante lineares, mas, apesar de tais semelhanças, ele se diferenciou totalmente dos demais jogos devido ao seu enredo cativante, sério e principalmente bastante maduro.

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Sobre: Julio Chiarini

Julio Chiarini

Arqueólogo, praticante de musculação, apaixonado por quadrinhos (foi otaku nos anos 90 rs), amante de filmes obscuros que ninguém conhece, audiófilo de velharias na vitrola, colecionador e entusiasta de video games nos finais de semana. Foi saber o que era video game em 1989 com um Phantom System na casa de parentes, mas só começou a se divertir realmente com games no longínquo ano de 1991, quando foi presenteado com o Mega Drive versão Altered beast e desde então não parou mais. Hoje em dia continua jogando nas plataformas clássicas e também nas mais atuais como: PS3, PS4, PS Vita e de vez em quando no PC (obs: se o jogo não for muito pesado...)

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