Entrevista: Alexandre Pagano, um designer que trabalhou na Tectoy na década de 1990!

Alexandre Pagano

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O site Sega Nerds, um dos melhores sites internacionais que falam, e muito bem, acerca da SEGA como um todo, fez uma grandiosa entrevista com Alexandre Pagano, que trabalhou na Tectoy na década de 1990. A entrevista fora conduzida por Luiz Nai, um membro brasileiro do site e este nos cedeu, gentilmente, a entrevista em português para que pudessemos publicar no nosso site. Segue então a entrevista na integra e, caso tenham interesse, podem ler ela na fonte original aqui.

1º ) Quem é você? De onde você é? E o que faz como profissão?

Meu nome é Alexandre Pagano. Sou brasileiro, nascido em São Paulo capital em 30 de dezembro de 1968, sendo assim, tenho 48 anos. Sou muito bem casado tenho um filhão de 25 anos. Para falar um pouco da minha carreira profissional temos que voltar um pouco no tempo… na verdade bastante, rsrsrsrsrs.

Em 1974 quando eu tinha apenas 6 anos meus pais me levaram para conhecer os parques de Orlando. Eu fiquei maravilhado com tamanha tecnologia, beleza e todas as maravilhas criadas por Walt Disney e toda sua equipe. Os desenho e animações sempre me fascinaram e desde então eu soube que trabalharia com animação.

Alguns anos depois, quando eu estava na faculdade nos anos 80, comecei a trabalhar em um estúdio de animação chamado HGN.  Este estúdio era tercerizados dos estúdios Disney, onde fizemos alguns curtas metragens. Goofy e sua turma, Ducktales, e o mais legal de todos, os Ursinhos Gummy.

Foi uma experiência muito importante pois, como os computadores nesta época ainda era um recurso muito, muito caro, trabalhávamos com a animação tradicional, ou seja, quadro-a-quadro, 24 frases por segundo, acetato pintado manualmente e depois fotografado quadro-a-quadro. Foi nesta época que aprendi tudo sobre animação. Uma grande escola!

2º ) Como e quando você entrou na TecToy?

Em 1990, ficou muito difícil continuar na área de animação… Infelizmente, esta é uma área muito pouco remunerada. Meu pai que trabalhava na área de vendas da Tec Toy, me disse que tinha uma vaga para assistente de promoções e que pagava muito mais do que eu estava ganhando na época. Como tinha que pagar minhas mensalidades no curso de Design na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, sai da área de animação e fui trabalhar na área de promoções da Tec Toy.

Uma de minhas atividades era responder cartinhas das crianças que tinham dúvidas sobre os brinquedos da Tec Toy. A maior demanda na época era como passar de certas fases nos games de Master System. Sendo assim, para responder estás dúvidas, eu tinha que jogar os games até o final.

Alexandre Pagano

Em um determinado momento, as crianças não queriam esperar o tempo do correio, elas queriam as respostas o mais rápido possível e começaram a ligar para a Tec Toy. Quando as linhas começaram a ficar congestionadas e eu passava mais tempo respondendo dicas do que fazendo outras atividades. A gerência de Marketing resolveu me absorver em um novo departamento chamado Hotline. Um canal direto para responder perguntas sobre os games da Tec Toy.

Conforme a demanda aumentava era contratados mais e mais atendentes e estes tinham as dicas em cadernos individuais e sem padrão de resposta. Decidi então fazer uma pasta com todas as dicas de uma forma padronizada, com uma linguagem única, layout claro, limpo e bastante técnico, isto ajudava na hora de responder as dúvidas dos nossos clientes. Nosso trabalho era atender telefonemas, responder as dicas de como passar as fases, jogar os lançamentos dos games para fazer novas dicas e atender as novas demandas dos nossos clientes.

Alexandre Pagano

Em um determinado momento o número de games lançados estava bastante alto e a complexidade dos games aumentava a cada dia.  Ficava cada vez mais difícil jogar e atender telefonemas, afinal de contas… não estávamos mais nos divertindo, tínhamos prazos, metas, etc… Foi neste momento que falei com o meu gerente na época André Goldfarb sugerindo que tivéssemos um especialista em games e eu estava me candidatando a esta vaga. Sendo assim em meados de 1991 foi criada a vaga de especialista de Games.

Os anos foram passando, e um game que marca a minha passagem de especialista em games para o 1º game designer do Brasil cai na minha mesa. Minha gerente na época, Andrea Bedricovetch me passa o cartucho Phantasy Star para Master System e me solicita uma avaliação, “Alê… Jogue este game e me diga o que você acha? Quero saber se vale a pena ser lançado?” Eu nunca tinha jogado um RPG de tabuleiro e muito menos digital. Estávamos nos anos 90, não tínhamos internet, Phatasy Star era conhecido no resto do mundo, mas para nós era uma novidade. Joguei e amei o game, mas meu parecer foi… Se não for traduzido… não vão jogar!

Isto foi avaliado e para minha surpresa fui envolvido no projeto de tradução do game. Foram três meses de trabalho adaptando este game. O trabalho de engenharia reversa elaborado pelo engenheiro Claudio Oyamagushi, fez com que não só conseguimos encontrar os caracteres de texto, mas também os caracteres de gráfico. Opá… Então poderíamos pegar games que não tinham sido lançados trocar os personagens e adaptar jogos para o nosso mercado? Sim, isto seria possível!

Foi ai que começamos a trabalhar com os games adaptados. Depois de fazer diversos games, diversas traduções, toda a equipe começou a ficar insatisfeita… Queríamos fazer um game do zero. Depois de diversas negociações de Marketing com direitos autorais, conseguimos a autorização para fazer um game do personagem Pica-Pau. Ficamos empolgadíssimos!

Mas…

Como é que fazemos um game? Só sabíamos adaptar games! Baseado no conceito de animação começamos a produzir o Game do Pica-Pau que tinha o nome secreto de “Asdrubal Trouxe o Trombone”, nome de uma banda brasileira de Jazz Funk da época que eu tinha acabado de assistir um show. Como o nome era muito grande… Ficou apenas Asdrubal.

Começamos a fazer roteiros.  Depois de aprovado o roteiro elaborado pelo Jaime e a Sandra Chemmin, começamos a desenhar o Memory Map, que nada mais é que um Storyboard do game. Aprovado o Memory map, passamos para a elaboração das animações construção dos gráficos, backgrounds e dos efeitos e da trilha sonora.

Paralelamente a engenharia com um time de primeira linha trabalhava na estrutura e programação do game. Este time era gerenciado pelo Claudio Oyamagushi, e tinha como programadores o Marcelo Caiado, Luis Campello, Mauricio Guerta, entre outros feras da área de programação. Finalizamos o game em novembro de 1995.

3º) Até quando você ficou lá?

Fiquei na Tec Toy até 02 de Janeiro de 1996.

4º) Quais projetos você fez parte?

Foram diversos projetos, não sei se conseguirei me lembrar de todos, mas vamos tentar…

Alexandre Pagano1) Hotline
2) Especialista em games
3) Treinamentos entendendo e como funcionam os games baseados em conceitos de semiótica.
4) Tradução do Phantasy Star
5) Tradução do Phantasy Star II (Mega Drive)
6) Tradução do Phantasy Star III (Mega Drive)
7) Monica no Castelo do Dragão (Adapt. Master System)
8) Turma da Mônica em o Resgate (Adapt. Master System)
9) Monica na terra dos Monstros ((Adapt. Mega Drive)
10) Chapolim x Drácula (Adapt. Master System)
11) Geraldinho (Adapt. Master System)
12) Sapo Xulé: O mestre do Kung Fu (Adapt. Master System)
13) Sapo Xulé: SOS Lagoa Poluída (Adapt. Master System)
14) Sapo Xulé vs Os invasores do Brejo (Adapt. Master System)
15) Where in the World is Carmen Sandiego (Adapt. Master System)
16) Where in the World is Carmen Sandiego (Adapt. Mega Drive)
17) Super GP Monaco com Airton Senna

Tiveram mais projetos, mas minha memória não é mais a mesma…  Um tipo de bank-line que acessava a conta dos usuários de Game Gear através de linha discada. E o mais insólito que foi um programa de Games que passava no programa do GuGu onde as crianças entravam dentro do jogo de vídeo game. Acho que tiveram mais projetos, mas não me recordo.

5º ) Qual trabalho foi o mais difícil? E qual você se sente mais orgulhoso de ter feito?

Foram muito trabalhos, mas acho que poderíamos dividir em três.. O trabalho mais complexo e que me deu mais orgulho, sem duvida alguma foi o game do Pica-Pau. O mais saboroso… não tenho d/vidas que foi a adaptação do Game da Mônica para Mega Drive, ele foi um dos mais bonitos que fizemos. Seria injusto não citar a tradução do Phantasy Star, pois sem ele eu não teria entrado no desenvolvimento de games.

6º ) Como era trabalhar na TecToy naquela época de ouro? Vocês tinham muito contato com a Sega? Eles avaliavam o trabalho de vocês?

Trabalhar na Tec Toy nesta época era muito satisfatório. Todos tinham e tem orgulho de ter trabalhado nesta que foi a maior industria de brinquedos tecnológicos dos anos 90. Eramos uma grande família.

O contato com a Sega era mínimo. Ele era feito apenas por Marketing. Diferente dos dias atuais a distância da língua também era um problema. Poucas pessoas falavam inglês. Isto dificultava, porém, a Sega era muito fechada.

A Sega, não avaliava nosso trabalho e também não ajudava… Não tínhamos softwares, livros, apoio, ou seja, nada. Tudo, absolutamente, tudo que foi feito e criado pela Tec Toy, foi desenvolvido e criado pelos seus colaboradores. Lembro novamente que não tínhamos Google, Youtube, internet… nada! Tiramos sangue de pedra! Fomos uma equipe muito unida e com muita garra!

7º) Você pode nos contar como funcionava o processo de criação do inicio ao fim?

Bom… Acho que já dei uma previa na pergunta anterior, certo? Estou finalizando um vídeo que mostra como fazíamos games na época, assim que estiver pronto.. te encaminho, ok?

8º ) Existe algum projeto ou algo que foi iniciado dentro da TecToy mas nunca foi finalizado que você possa compartilhar com o público?

Era uma empresa muito preparada, quando iniciávamos um projeto, este ia até o fim. Acho que o único projeto que não foi adiante, foi o lançamento do Sega Saturn, que foi avaliado e nem começamos o desenvolvimento.

9º ) Com o lançamento do novo Mega Drive, muitas pessoas estão pedindo para TecToy relançar o Turma da Mônica. Por ser um projeto que você fez parte, como você se sente ao ver o game receber tanto carinho mesmo depois de tanto tempo?

Sendo bem sincero… Nunca imaginei que estes trabalhos que realizei fossem repercutir como vem repercutindo nestes últimos anos. Afinal eram apenas games… Não imaginava que isto teria um impacto tão grande.

Tudo que faço sempre tento fazer com muita atenção aos detalhes e dar o máximo de mim. Porém, sempre acho que todos nós fazemos, não é verdade? Toda vez que alguém reconhece, elogia ou mesmo critica, está minha participação no desenvolvimento de games no Brasil, para mim, é uma grande honra; pois, saber que de alguma forma pude contribuir com o entretenimento de um grupo de pessoas e que as mesma tiveram qualquer tipo de opinião boa ou ruim, isto me faz sentir extremamente lisonjeado.

Ter a oportunidade de ser um artista digital da década 90 e colaborar com a curva de aprendizado de uma geração que fez a ponte para a geração super digital de hoje, só me faz ter orgulho. Foi apenas uma participação, mas me sinto extremamente honrado.

10º) Qual é o seu console favorito? E o game favorito?

Bom… Hoje em dia, devido a falta de tempo, não sou mais um jogador assíduo, mas, minha família é muito tecnológica como vocês devem estar imaginando.  Temos quase todos os consoles da atualidade, Wii U, Switch, PS3 e 4, X-Box, entre outros… Fica muito difícil de falar sobre X ou Y console… Todos tem suas características e particularidades que eu amo. Vamos colocar assim…

O mais nostálgico sem duvida alguma é o Atari.
O que deu o maior passo de tecnologia foi o Master System.
O mais divertido foi o Nintendo 64.
O que teve maior gama de jogos foi o PlayStation I.
O mais interativo foi o Wii e o Wii U
O mais tecnológico é o PlayStation 4
Mas, o console que mora no meu coração ainda continua sendo o Mega Drive.

É injusto poder falar apenas de um game…  Vou eleger 5, ok?

5º – Phantasy Star
4º – Férias Frustradas do Pica-Pau
3º – Mônica na terra dos monstros
2º – Epic Mickey
1º – Super Mario 64

Alexandre Pagano

Um dos jogos que mais marcaram Alexandre

Acho que estes 5 foram os games que mais marcaram minha vida!

11º) O que você achou do novo Mega Drive da TecToy?

Não tive oportunidade de avaliar, mas conhecendo o olhar visionário e o grande empreendedor que é o Stefano Arnold, tenho certeza que será um grande console.

12º) Quais conselhos você daria para alguém que esta começando agora?

Aprenda com o passado para criar um futuro ainda melhor. O segredo de games de sucesso ainda está na nossa essência, ou seja, por mais que criamos tecnologias extremamente inovadoras, continuaremos bichos humanos. Games de criem comunidades (bandos), que possibilitem disputa e a elegibilidade de lideres independente do sexo (macho alpha) continuaram sendo os próximos sucessos do mercado, independente de console, qualidade de gráficos, jogabilidade, ou outra característica especifica.

13º) Gostaria também de deixar alguma mensagem para os fãs da TecToy e Sega?

Eu sou fã de vocês! Muito obrigado pela oportunidade! Me sinto muito honrado e lisonjeado por poder contar um pouco da minha história, da nossa história. Da história de vocês!

Um grande abraço!

Alexandre Pagano

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Sobre: Daniel Gomes

Um ser com a opção entre ser louco ou normal, mas prefere ser cearense. Estuda na área de computação e tem um plano de dominar o mundo inteiro; só não sabe como fazê-lo. Não é colecionador de games. Tem apenas um PS2, PSP e um NDS, mas joga mesmo é no PC. Adora o Mega Drive de coração e, se pudesse, passaria mais tempo jogando os clássicos deste sistema, mas atualmente, anda se viciando demais nos jogos da Nova Geração nos PC’s.Iniciou a sua carreira gamística com o Atari e desde então nunca mais parou.

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