Especial Sonic #3 – O sabor americano
Especial, Megapédia — By Rafael Malaman on 13 de janeiro de 2012 23:40No início da década de 90, a prioridade número 1 da SEGA era conquistar o mercado americano. Milhões de dólares foram investidos nessa empreitada. A filial local da empresa, fundada em 1989 para dar suporte ao lançamento do Genesis (como o Mega Drive é conhecido nos EUA), foi criada com um objetivo em mente: bater a Nintendo na praça mais lucrativa do mundo.
Não era uma tarefa fácil: a Nintendo tinha conseguido colocar um NES em cada 4 casas no país, o que era um grande feito para época. Ela era também responsável por 90% das vendas de videogames nesse território.
Por conta disso, a matriz japonesa deu uma grande autonomia para um jovem e promissor time de executivos liderados por Tom Kalinske, que havia vindo diretamente da poderosa Mattel. Eles entendiam as necessidades desse público e poderiam ser a chave para estabelecer a SEGA nos EUA.
Sonic, criado especialmente para fazer sucesso no Ocidente, não poderia ficar fora desses planos. Dessa forma, a equipe de marketing americana ficou responsável por adaptar o ouriço azul ao sabor americano. E eles teriam um longo trabalho pela frente.
Que raios é um ouriço!?
Enquanto Yuji Naka e seu time trabalhavam arduamente no jogo, as primeiras imagens daquilo que viria a se tornar Sonic foram enviadas para a análise do departamento de marketing da SEGA of America. Como todos os japoneses haviam pensado no público ocidental desde o início do projeto, eles imaginavam que o personagem seria recebido com entusiasmo pelos diretores americanos.
Não poderiam estar mais errados. A primeira reação nos escritórios da filial foi “Vocês estão loucos? Que raios é um ouriço!? Isso nunca fará sucesso nos EUA!”. O novo mascote foi encarado como japonês demais para vingar na América. Seus olhos grandes e desenho simplificado foram vistos como demasiadamente inspirados na cultura dos mangás.
Por conta disso, os diretores americanos, que já estavam tendo um trabalho árduo pra conseguir empurrar o Genesis no país, ficaram desesperados: alguma coisa teria de ser feito para evitar esse erro. A primeira proposta deles foi indicar um designer para criar um novo personagem do zero. Um mascote que tivesse tudo aquilo que as crianças do país gostavam. Hayao Nakayama, presidente da SEGA, no entanto, bateu o pé: “Vocês vão ter que engolir o Sonic – e fazer dele um sucesso”. Os executivos da filial receberam essa resposta desanimados: “Estamos f*”.
Madeline Schroeder, gerente de produtos, resolveu adotar o ouriço. Afinal, ele era carismático por si só. Com uma ou outra alteração, poderia, sim, alcançar o sucesso desejado.
A visão dos japoneses
Sonic, originalmente, tinha algumas diferenças em relação ao personagem que conhecemos hoje. No início, ele era a soma de vários elementos de uma visão estereotipada que os japoneses possuíam das preferências americanas.
O ouriço azul seria líder de uma banda de rock, dançarino de break e estaria acompanhado por 4 parceiros: a galinha Sharps, o macaco Max, o coelho Mach e o crocodilo Vector. Somente esse último seria reaproveitado, no futuro, em Knuckles Chaotix (32X).
Ele também teria uma namorada humana: uma loira gostosa chamada Madonna. Ela seria, praticamente, uma “maria-chuteira”: correria atrás de Sonic, tratando-o como a última bolacha do pacote.
O resto da história, que seria mantida na versão japonesa do jogo, seria a seguinte: South Island, plano de fundo das aventuras do ouriço, é uma ilha mitológica que flutua sobre o oceano, sem uma posição fixa. Por conta disso, não é encontrada em mapa algum.
A razão para esse comportamento não é conhecida, mas muitos acreditam que esteja relacionada à presença das esmeraldas do caos, pedras de grande poder que regulam o funcionamento do local.
Dr. Eggman, o vilão do jogo, deseja explorar essa energia desconhecida. Para isso, cria um complexo industrial em uma das pontas da ilha, a Scrap Brain Zone. E, a partir dessa base, desenvolve um plano cujo objetivo é transformar todos os animais que habitam o local em robôs e, consequentemente, tomar o controle de suas mentes. Dessa forma, ele poderia formar um exército de escravos cuja função principal seria procurar as esmeraldas. A missão de Sonic é libertar a fauna de South Island desse jugo e proteger seu ecossistema, uma vez que seu equilíbrio depende dessas pedras preciosas.
Adaptando Sonic ao gosto americano
A equipe de marketing da SEGA of America acreditava que alguns elementos dessa história deveriam ser alterados. Em primeiro lugar, Sonic teve seus dentes caninos retirados, pois eles lhe davam um visual excessivamente agressivo. O personagem também perderia sua namorada humana, já que a relação de um ouriço com uma mulher seria vista com estranheza e poderia gerar a rejeição do público. O grupo musical e a ideia do mascote como líder de uma banda seriam, igualmente, descartadas.
Por sinal, essa é uma parte relativamente controversa da história. Yuji Naka já chegou a mencionar, certa vez, que a remoção de Madonna foi ideia do próprio Sonic Team. O motivo? Fazê-lo resgatar sua namorada deixaria o jogo demasiadamente parecido com Mario aos olhos dos gamers.
Porém, o atrito entre os desenvolvedores japoneses e os executivos americanos chegou ao seu limite por outro motivo: o redesenho de Sonic, realizado pela equipe de marketing liderada por Al Nilsen. Seus traços foram adaptados para algo mais próximo àquilo que as crianças ocidentais estavam acostumadas: os personagens da Warner Bros e da Disney.
Um pôster com essa versão modificada do ouriço chegou às mãos do Sonic Team. Naoto Oshima, seu criador, ficou horrorizado ao ver o trabalho realizado pela filial. “Por que é preciso americanizá-lo ainda mais?”. Nada é pior para um artista do que ver sua obra mutilada por terceiros.
O clima ficou tão pesado que Madeline Schroeder precisou ir até o Japão para convencer a equipe de desenvolvimento de que as modificações eram necessárias para aumentar as chances de sucesso do Sonic nos EUA. Consternados, os orientais acataram a decisão.
No fim, o ambiente não era dos melhores em nenhum dos lados do oceano. A poucos meses do lançamento, a maioria dos diretores da SEGA of America ainda não acreditava que Sonic pudesse emplacar, apesar dos esforços realizados.
Uma nova história para Sonic
Porém, o trabalho de localização continuava a todo vapor. Assim como seu desenho fora alterado, Sonic também ganharia uma história mais próxima ao enredo das animações mais populares dos Estados Unidos.
Dr. Eggman, vilão do jogo, seria outra vítima dessa “plástica”. Inicialmente concebido para ser um arquirrival cômico, ele foi transformado em um ser maligno. Seu redesenho deixou-o mais sombrio. E até seu nome foi alterado: Dr. Robotnik foi escolhido dentre uma lista de nomes criada pelo funcionário Dean Sitton que incluía Dr. Badvibes, Doctor X, Doctor Bloom e Dr. What.
O pano de fundo do jogo passou da misteriosa South Island para o distante planeta Mobius. Elementos chupados de Tartarugas Ninja foram incorporados: Sonic, inicialmente, era um ouriço comum. Graças a uma fórmula do cientista Dr. Ovi Kintobor, ele foi transformado no personagem que conhecemos hoje.
Este homem canalizou todas as energias negativas de seu mundo nas seis esmeraldas do caos. Bastava, agora, que elas fossem destruídas para que todo o mal fosse erradicado de Mobius. No entanto, um acidente aconteceu nesse exato momento. Dominado pelo poder das pedras, o bondoso cientista se transformaria no maníaco vilão Dr. Ivo Robotnik.
Ensandecido, ele começou a usar todos os recursos naturais do planeta em seus complexos industriais. Até mesmo os animais da floresta, amigos de Sonic, sofreram com isso: foram transformados em robôs. Dessa forma, integrariam um exército para conquistar todo o mundo. Somente o nosso ouriço azul poderia recuperar as esmeraldas e detê-lo.
Com todas as modificações feitas, faltava testar qual seria a reação do público ao novo personagem. E uma ótima alternativa para isso seria a feira CES (Consumer Electronics Show), a ser realizada em Las Vegas no mês de março de 1991.
A vitória na CES
A SEGA of America chegava à CES com uma difícil missão: ofuscar o anúncio do lançamento do Super Nintendo no país. E a tarefa não era fácil: para cada dólar que tinham para investir em marketing, a sua rival contava com 15. Por isso, era necessário arriscar mais em suas ações para que não fossem engolidos.
Após testarem uma versão beta do jogo, os executivos americanos recuperaram seu ânimo. Eles tinham um bom produto. E precisavam mostrar para o público que o Mega Drive era o melhor console, a escolha certa para qualquer garoto popular e de atitude.
E Sonic the Hedgehog era o título que eles aguardavam para mostrar as vantagens de seu produto. A estratégia era ousada: colocar, frente a frente, o grande lançamento da Nintendo, Super Mario World com o seu novo jogo. E deixar que os frequentadores decidissem qual era o melhor.
A tática funcionou muito bem. Todas as crianças faziam filas imensas em frente ao estande da SEGA para conferir o que esse estranho novo personagem tinha para oferecer. E a diferença era gritante: enquanto o jogo de Mario pouco inovava em relação àquilo que eles já jogavam em seus velhos NES, Sonic tinha atitude, velocidade e cenários espetaculares – únicos e multicoloridos. Além de tudo, era um título bem acessível: crianças pequenas e jogadores casuais se divertiam tanto quanto a galerinha hardcore. O nível de desafio estava na medida certa.
Com isso, todos ficaram confiantes. O lançamento do jogo, marcado para 23 de julho de 1991, tinha tudo para ser um sucesso.
Porém, só isso não bastava. A SEGA havia crescido sua participação no mercado em apenas 5% e o lançamento do Super Nintendo se aproximava. Sonic era a chave do sucesso, mas seria preciso ir ainda além para bater a rival.
De ouriço a porco-espinho
No Brasil, a situação era bem mais tranquila. A Tec Toy era líder absoluta do mercado e, àquela altura, a entrada da Nintendo no país ainda estava longe de acontecer.
Até mesmo por aqui, no entanto, Sonic sofreu com o processo de localização. De ouriço passou a porco-espinho. Como o animal não é tão desconhecido assim, essa mudança pode ter sido influenciada por alguma gíria popular que dê conotação negativa à palavra “ouriço”. Porém, não encontrei referências para tal. Por conta disso, o mistério da mutação dos bichos permanece.
No entanto, esse certamente foi o motivo de traduzir a palavra rings para argolas em vez de anéis, que seria o mais correto. Afinal, não ficaria nada bem dizer que “Sonic perdeu o anel”, certo?
Na quarta parte de nosso especial, falaremos sobre a repercussão do lançamento de Sonic the Hedgehog, seu sucesso nos mais variados territórios e nas estratégias da SEGA para fazer com que o ouriço azul, com menos de um ano de idade, superasse lendas como Mario e até mesmo Mickey Mouse na cabeça das crianças americanas. Não percam!
Especial Sonic
Especial Sonic #1 – Nasce uma Estrela
Especial Sonic #2 – Do papel para a tela
Especial Sonic #3 – O sabor americano
Especial Sonic #4 – O ouriço ganha o mundo
Especial Sonic #5 – Um ouriço em 8 bits
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Tags: Especial, História, Sonic-
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